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Sinistralidade maior na segunda onda da pandemia

A pandemia não acabou. Ao contrário, a Europa vive uma segunda onda, puxada por um vírus modificado e mais agressivo, enquanto o Brasil segue firme na primeira onda que, de acordo com os especialistas, está longe de acabar.

A redução do número de casos e, principalmente, do número de mortos, está fazendo com que parte da população brasileira imagine que a pandemia foi para Marte e que é possível tocar a vida como se ela não houvesse acontecido, o que, infelizmente, não é verdade.

Com a volta às atividades normais, os acidentes, que haviam caído para níveis históricos muito baixos, começam a retomar os antigos índices estatísticos, com tudo de ruim e caro que a notícia tem. Como se não bastasse, o uso dos planos de saúde privados, represado por conta da pandemia, volta a subir, com os segurados realizando toda uma série de procedimentos que estava represada por medo da Covid19.

Ao longo do primeiro semestre, o número de acidentes de trânsito em todo o país caiu para os menores índices da história recente nacional. Em São Paulo, nunca, desde o início da aferição dos acidentes de veículos, ele esteve tão baixo como nos primeiros meses da pandemia, quando o isolamento social foi levado a sério e boa parte da população ficou dentro de casa.

Na mesma época, os planos de saúde privados também tiveram uma redução significativa de seu uso pelos segurados. Por causa dos hospitais lotados com os doentes portadores da Covid19, os titulares dos planos privados simplesmente resolveram adiar seu uso e deixaram para depois ou desistiram de realizar toda sorte de procedimentos não essenciais, de exames a cirurgias.

Em algum momento, o brasileiro, incentivado pela postura controversa do Presidente da República, enjoou de ficar em casa e decidiu que podia retomar suas rotinas sem maiores cuidados, jogando a pandemia na conta já alta das fatalidades que encarecem a nossa vida.

O processo de relaxamento foi rápido e, quase que do dia para a noite, as ruas voltaram a ficar cheias, o trânsito retomou seu espaço e as irresponsabilidades voltaram a castigar as  pessoas inocentes, vítimas da manutenção das práticas negativas que cresceram nos meses em que as vias e calçadas ficaram praticamente vazias.

O resultado da nova realidade pode ser visto na quantidade de carros e pessoas que circulam pelas cidades brasileiras, usando todos os tipos de locomoção pública e privada. Como não poderia deixar de ser, mais carros nas ruas significa mais acidentes e foi isso que aconteceu. Os acidentes de trânsito estão em ascensão, voltando a ser um problema para as redes de emergência, que, depois das UTI's lotadas com o coronavírus, passam a ter que lidar com as vítimas do trânsito, que voltaram a encher os corredores dos prontos-socorros.

Este movimento vai impactar negativamente o desempenho das seguradoras focadas em seguros de veículos e planos de saúde privados. Se, no primeiro semestre, seus balanços refletiram positivamente a queda das indenizações, a partir de agora, o aumento rápido da utilização dos planos de saúde privados para atender casos não relacionados à pandemia e a volta dos acidentes de trânsito para patamares próximos dos do começo do ano vão onerar seus resultados e piorar os números de 2020.

A interrogação que fica é o que vai acontecer em 2021. A recuperação brasileira tem sido impressionantemente rápida. Alguns indicadores apontam a volta para números pré-pandemia e várias análises indicam que a recessão será menor do que incialmente imaginada.

Mas o desemprego continua alto e o país está na beira do abismo, com o déficit fiscal podendo assumir proporções inquietantes para o futuro da economia. Além disso, a inflação deve dar um salto forte, indo de 2% para mais de 3,5% em 2021.

Ainda é cedo para dizer o que quer que seja, mas já é hora de se tomar cuidado. O que vem pela frente é para profissionais.

Antonio Penteado Mendonça, no Estadão