Voltar

Clima causou perda de R$ 168 bilhões em uma década

Desastres naturais causados por fenômenos meteorológicos no Brasil afetaram a vida de milhões de pessoas - algumas das quais prejudicadas diversas vezes - entre 2010 e 2019 e causaram prejuízos totais de R$ 168,4 bilhões. Foram quase 30 mil ocorrências no período, com a prevalência de estiagens e secas, como as que derrubaram as projeções para a colheita da segunda safra de milho no país este ano. Eventos mais extremos, como alagamentos e chuvas intensas, causaram a morte de 1.734 pessoas e deixaram cerca de 50 mil feridos, 1.374 desaparecidos e mais de 3 milhões de desabrigados.

De olho nos impactos do clima na economia e na vida dos brasileiros, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) compilou as informações sobre os dez principais tipos de eventos naturais ocorridos no país, como alagamentos, enxurradas, inundações, chuvas intensas, granizo, estiagens e secas, ondas de calor e baixa umidade, ondas de frio, vendavais, ciclones e tornados. Os danos materiais, como bens imóveis e instalações danificadas ou destruídas, superaram os R$ 33,1 bilhões no período.

O estudo sobre os danos sociais e econômicos decorrentes de desastres naturais, antecipado ao Valor, também evidencia o contraste dos fenômenos hidrometeorológicos e climáticos no Brasil, que vão desde as secas prolongadas ao excesso de chuvas, das temperaturas negativas ao calor intenso, tudo no mesmo ano.

O diretor do Inmet, Miguel Ivan Lacerda, diz que os eventos climáticos sempre impactaram a vida humana em todo o planeta, mas que os efeitos têm alcançado proporções maiores. Sem "alarmismo", ele afirma que é preciso avaliar a real dimensão do problema para as pessoas e a economia do país. "Considerar o problema do aquecimento global, que tem seu vetor na emissão de combustíveis fósseis, é menosprezar o impacto real na vida do Brasil. O número de vítimas é aterrador", destacou.

As enxurradas e inundações foram responsáveis, respectivamente, por 65% e 11% dos óbitos entre dos grupos analisados no período e por 48% e 17% dos feridos. As enxurradas também foram a maior causa de desaparecimentos, com 1.085 casos, 79% do total. As inundações ainda deixaram mais de 1,4 milhões de pessoas desabrigadas (47% do total) e 325,8 mil desalojadas (46% dos 702,4 mil totais).

O grupo de eventos formado por alagamentos, enxurradas, inundações e chuvas intensas foi o que causou mais danos materiais, com R$ 30,9 bilhões, quase o mesmo número de prejuízos públicos e privados ocasionados, de R$ 30,7 bilhões. Um dos casos relatados pelo Inmet foi em em Belo Horizonte (MG), com chuvas acima da média e concentradas em um intervalo de 24 horas.

"Em geral, precipitações iguais ou maiores que 30 milímetros em 24 horas apresentam algum tipo dano ou transtorno, e esse patamar que tem sido alcançado com maior frequência, como observado principalmente em centros urbanos", diz o estudo.

Estiagens e secas tiveram o maior número de ocorrências entre os grupos pesquisados, com 18,9 mil, e o maior número de vidas atingidas, com mais de 160 milhões de pessoas, 76% do total. A falta de chuvas gerou menos danos materiais em relação aos outros fenômenos, com pouco mais de R$ 174 milhões, mas teve o maior peso nos prejuízos, com mais de R$ 132 bilhões, quase 80% do total. A maior parte foi de prejuízos privados (R$ 114 bilhões).

Diferentemente dos danos materiais, os "prejuízos" medem a perda relacionado ao valor econômico, social e patrimonial do bem atingido. No setor público, por exemplo, são avaliados os impactos da paralisação ou sobrecarga em serviços como transporte, saúde e limpeza urbana. No setor privado, são contabilizados os efeitos dos desastres na agropecuária, comércio, indústria e serviços.

O Inmet relatou um forte período de seca no país entre 2012 e 2016, com extensa área atingida, principalmente no Nordeste e norte de Minas Gerais. Regiões de destaque na produção agropecuária também têm enfrentado intempéries semelhantes com reflexos diretos no potencial produtivo.

É o caso das perdas nas lavouras de soja do Rio Grande do Sul, em 2020, e da falta de chuvas deste ano no Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo que fez a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) cortar a estimativa de colheita da segunda safra do cereal para 60,32 milhões de toneladas, quase 20% a menos que no ano passado - períodos fora da análise do instituto.

Houve 126 registros de pessoas enfermas em consequência das ondas de calor e baixa umidade de 2010 a 2019, e não apresentam registros de óbitos, feridos, desalojados ou desaparecidos. Foram 1,1 milhão de atingidas de alguma forma em um universo de 31 ocorrências. As ondas de frio ocasionaram uma morte, 2 feridos, 1.299 enfermos, 139 desalojados e 72 desabrigados, com 45,8 mil pessoas afetadas e 80 ocorrências. Fenômenos resultaram em danos materiais de R$ 30 milhões e prejuízos totais de R$ 340,1 milhões. Vendavais, ciclones e tornados causaram 87 óbitos, quase 3 mil feridos e mais de 4 milhões de vidas atingidas em 1,5 mil eventos registrados.

Os prejuízos totais passaram de R$ 2,2 bilhões. "Ventos de intensidade mais elevadas podem causar danos estruturais, materiais e colocar em risco os transportes e a vida das pessoas", relata o estudo. As dez maiores rajadas de vento observadas nas estações meteorológicas convencionais do Inmet superaram os 162 km/h. Queda de granizo foi registrada 694 vezes, causando morte de 14 pessoas, R$ 1,3 bilhão de danos materiais e R$ 2,1 bilhões de prejuízos totais.

Valor Econômico